Adilson Geri – relato BRM 600

Demorou mas saiu.
Este ano não pude participar das provas de audax devido minha escala de trabalho, mas em primeiro lugar buscar o pão de cada dia, então paciência. Ao ver o calendário 2016 e como estaria de férias em junho prometi aos amigos Renato Casa Sutil e Paulinho que se eles tivessem pedalado a série iria com eles para a prova final em busca da medalha de super randonneur, ou seja, pedalar em um mesmo ano as distâncias de 200, 300, 400 e 600km.

Neste mesmo barco estavam o Vitor e o Alex. Juntaram-se a nós também o Carlão e o Bugrão, esses irão buscar a medalha ao completar a série em Bagé.

Fizemos algumas reuniões e decidimos que iria um carro de apoio, o motora seria o Telmo, um cara gente boa e sempre disposto em nossas paradas. Com esse carro fiquei mais tranquilo, não tenho treinado muito e levar tudo na bike seria um esforço a mais, teria que levar o necessário e achar um jeito de não carregar muito peso.

A saída de Camaquã em três carros, viagem tranquila regado a um bom chimarrão escumoso e logo já estávamos no clima de audax, largada no DC Navegantes seria ás 22h. Encontrei amigos feito em provas anteriores e rápidas conversas fomos pegando os kits, na janta conheci o Julio Silva de Lagoa Vermelha, ele havia pedalado o 400 com a turma e iria conosco nesse 600, preparação das bikes, ajustes finais, briefing, contato final com a família e a partida em busca de completar uma prova que não é fácil, 600km em 40hs, previsão de dois dias gelados.

O que leva quase 100 ciclistas a se abdicar de estar em casa numa boa, bem quentinho com a família a fazer uma “loucura” destas? Cada um tem uma resposta, outros não, talvez uma delas seja que saímos muito mais fortes para encarar o dia a dia depois de um audax como este.

Antes da largada fizemos uma oração pedindo proteção Divina não só para nós, mas também para todos os envolvidos, família,Untitled-1 apoio, outros ciclistas e organização.

Muito lindo o pelotão de aproximadamente 100 ciclistas na saída, mas logo já foi se dispersando, o pedal na rodovia do parque fluía bem, vários pelotões foram se formando, ao sair da rodovia tive que parar e largar um pouco do chimarrão, parou também o Renato, dali até Novo Hamburgo fomos sozinhos, não alcançamos mais o nosso pelotão, mais tarde vimos que até corremos um certo risco andar sozinhos por ali, se não me engano dois ciclistas foram assaltados e perderam suas bikes.

No trecho entre Novo Hamburgo e Taquara notei que meu farol estava com a luz fraquinha, possuo um dínamo e mais adiante falei com o Formiga que também tem um e ele achou que talvez seria o conector que não estava bem apertado, no pc 1 apertei com alicate mas sem sucesso, prossegui com a luz fraca, tinha mais uma lanterna no guidão e também na carona das luzes dos colegas.
PC 1 – Km 84 – 1h33min – Taquara, parada rápida onde comemos sopão com pão, abastecemos de água pois os próximos km seria meio deserto, o Bugrão, Vitor e Júlio já haviam saído uns 15min antes e não alcançamos mais eles, quando chegamos no pc 2 eles ainda não haviam chegado ali, tentamos ligar para eles mas não conseguimos, mais tarde eles chegaram e disseram que haviam passado reto num trevo e seguiram direção a Rolante, andaram uns 30km a mais.

Nesse trecho andou conosco o Marcelo Viajante Cecatto, veio de Santa Catarina para pedalar aqui, havia conhecido ele no audax 400 em 2014, conversamos um pouco e mais adiante ele seguiu num ritmo um pouco mais forte.
Antes de chegar a Osório encostei-me a um pelotão para aproveitar as luzes mais fortes e acabei conhecendo o João Carlos Godoi, este veio de São Paulo juntos com seus colegas, ele estava tentando buscar a super randonneur este ano, me falou que talvez seu colega me ajudasse a consertar o farol do dínamo, quando chegamos no pc 2 conheci ele, era o Giuliano Guarini, conversamos um pouco trocando ideias e acabamos sem consertar o farol.

PC 2 – Km 155 – 5h11min, Osório, O Renato já reclamava muito de dor no joelho, me pediu um spray de cavalo para ver se amenizava a dor, comemos algo e ficamos ali uns 50min, com a função dos colegas ainda não terem chegado. assim que eles chegaram o Vitor feliz da vida por ter conhecido a cidade de Rolante.
O trecho até Capivari praticamente reto e todo ele plano, parece que não passavam nunca aqueles 38km, e ainda teria que voltar, amanheceu o dia.

PC 3 – Km 193 – 7h43min – Capivari do Sul, na chegada o Renato já foi colocando o spray no joelho e logo comemos o lanche que era oferecido, ambiente agradável bem quentinho, olhava em volta e alguns ciclistas já demostrando desgaste dormiam sentados mesmo.
Falei que estava preocupado com a minha luz, a próxima noite seria inteira de pedal, o Paulinho falou pra eu ficar tranquilo e ir na carona das luzes deles, pensei bem e se preocupar pra que? Deixa vir à noite e ver no que vai dar.
Fizemos uma foto com a galera toda no portal de entrada e partimos retornando para Osório, agora com o dia claro se podia ver a bela paisagem feita por Deus e os homens, lagoas e cata-ventos do parque eólico diminuíam aquela reta interminável.

PC 4 – Km 232 – 9h58min – Osório, Neste pc já fui tirando o excesso de roupas, estava me sentindo muito sufocado e na esperança de o sol aparecer diminui bastante as roupas do corpo enquanto comia umas pizzas que a sogra do Renato havia feito, rapidamente já estávamos nos deslocando sentido a Torres.
Antes do desvio do túnel paramos num posto pro Renato tomar um remédio e ainda comentei que logo chegaria o desvio, mas será13466414_990315844421208_948118306269250921_n que não passamos reto? Tivemos que voltar um pouco, nessa hora o Vitor, Bugrão e o Julio se juntaram a nós, seguimos num tranquinho bom e mais adiante o Renato comentou que o Julio havia parado, olhava para trás e não vinha nunca, resolvi voltar, pois ele era o último do pelote, logo o encontrei e disse que estava esperando o Vitor, mas o Vitor já estava bem á frente. O Julio comentou que estava com fome, e o pc do almoço estava 40km a frente, mas nesse trecho tinha vários pontos de apoio, então comida não seria problema.

PC 5 – Km 297 – 13h22min – Três Cachoeiras, Na chegada olhei para a planilha e vi que a folga era de uma hora em relação ao planejado, isso é bom, mais tempo teria para dormir, porém o almoço não estava pronto, tinha que esperar até que viesse as porções de prato feito, ficamos ali mais de hora, perdemos algum tempo, nosso pelotão já sentia o sono, dormi um pouco num cobertor que atirei no chão.
Antes de sair combinamos de tentar dormir em Torres se tivesse lugar no hotel, porém não estavam todos ali e alguns não ouviram essa troca do local do ponto de sono, em principio seria no km 400, mas o cansaço nos fez mudar de ideia e ir até o km 344 para dormir, o Bugrão falou que iria dormir uma hora ali mesmo e de repente mais uma horinha mais adiante e já foi se atirando no cobertor que estava no chão. Mais tarde até gerou certo atrito essa troca de local, o pessoal que foi até o km 400 acabou ficando sem roupas de troca e uns sem dinheiro para pagar o hotel, pois o carro de apoio estava conosco em Torres.

PC 6 – Km 338 – 16h30min – Passo de Torres, Na chegada na ponte pênsil estava ali uma galera com frutas e água, um atleta local, João Luiz Souza com um microfone nos colocava lá nas alturas falando sobre o tamanho nosso desafio, rapidamente seguimos para chegar no hotel e logo dormir o máximo de tempo possível.
Quando vi que esse 600 passaria em Torres me empolguei, seria um percurso diferente jamais pedalado por mim, pedalar na BR 101, passar a fronteira do RS em Passo de Torres e seguindo pela beira do mar em Torres deu um ânimo bem legal, ao ver a água na beira da praia deu até vontade de tomar um banho ali mesmo (que mentira).
Na chegada do hotel foi ás 17h11min e combinamos dormir e sair pelas 20h, pedalar com uma margem boa, pois o próximo PC fecharia perto da meia noite.
Tomei banho, liguei pra nega véia dizendo que estava tudo bem, deixei tudo separado o que iria usar ao sair e me abafei. Ao contrário dos outros 600 que fiz não conseguia ferrar no sono, volta e meia me acordava e olhava no relógio, ficava feliz, pois ainda tinha mais uns minutinhos para dormir.
Ao acordar tomei um energético e enquanto me vestia comia um lanche que o Renato havia levado. Tudo pronto partimos ás 20h15min, logo uma subida forte nos esperava na saída de Torres, o Alex comentou que a temperatura estava boa e sem vento, aliás, nesse audax não deu para reclamar de nada com relação a vento, se não fosse o frio o restante estava bom.

PC 7 – Km 387 – 22h23min – Terra de Areia, Chegamos bem antes do fechamento, vimos que os outros 3 haviam carimbado ali ás 20h, e agora? Será que seguiram adiante conforme o Bugrão havia falado em dormir um pouco aqui outro pouco ali? Ou pararam no hotel? Bom pelo menos agente ficou sabendo que estavam na prova ainda.
O frio já era intenso, comemos torrada e tomamos algo enquanto aproveitava o descanso merecido, a essas alturas já estava virando superação mesmo, até brincamos dizendo que no Desafio 200 da Triplo x no próximo final de semana íamos ir só pra entregar bananas nos pontos de apoio, ninguém queria mais saber de bike, tamanho era nosso desgaste, até nos voluntários da organização que estavam ali se notava o cansaço, muito tempo sem dormir.
No piso da lancheria tinha dois gurizão dormindo, o Gabriel Finkler ferrado no sono, tentaram acordar um deles e até me apavorei, o cara não acordava nem com banda de música.
O Renato deu uma dormidinha dentro do carro e não demorou muito acordou renovado e nos convidando para seguir.
Seguimos e logo na saída num viaduto furou o pneu da bike do Carlão, voltamos e ele já estava tirando as ferramentas daquela mega bolsa que ele carrega atrás do banco, acho que até roda reserva tinha dentro, tudo resolvido e agora a missão era achar o trevo que dá acesso a Maquiné para a tal de selfie, acionei o GPS para não ter erro, saímos da BR 101 e uma escuridão tomou conta, o Paulinho apavorado achou que agente estava perdido, fiquei quieto sabendo que logo já estaríamos no trevo e acabaria a dúvida.

PC Sefie Maquiné – Km 413 – 0h40min Após a foto comi uns chocolates e logo seguimos, acho que andamos uns 10min e o bateu a fome no Renato, paramos e ele comeu uns amendoins salgados que eu tinha, aquele trecho do desvio do túnel foi bem demorado na volta, o Renato já não estava aguentando de dores no joelho, fomos até um posto já na BR 101 e o Carlão encheu os joelhos do Renato de calminex, era a última esperança de salvar os joelhos do passarinho.

PC 8 – Km 438 – 2h38min – Osório, Estava muito frio nesse PC, parecia que era um ponto alto da serra, fui no carro e peguei mais um moleton, coloquei por cima da camisa de ciclismo mesmo, parado tremia de frio quase que sem me controlar. O Renato foi para o carro e deu mais uma cochiladinha.
Logo chegaram o Vitor, Bugrão e o Julio, todos muito brabos que tinham ido até o hotel e o carro de apoio não estava lá. Realmente ficaram numa braba, lembrei-me de um 600 do Faccin em 2013, era um brevet zero, sem apoio algum, tudo que pudesse levar estava na bike, fiquei sem roupa seca no ponto de sono e tive que pedir emprestado pro amigo Bruno Frederico Tiggemann.
O Renato acordou e falou para todos irem que seguiria comigo num ritmo mais lento, ele não queria comprometer a prova dos outros, já que todos estavam buscando a super randonneur. Desde que ele começou com as dores falei que iria com ele, pra mim não importava muito a conclusão da prova dentro do tempo, claro que todos querem concluir com êxito, mas eu já estava feliz só em ter pedalado aquele percurso.
O Paulinho ouviu a conversa e resolveu ficar conosco, e assim seguiram o Alex e o Carlão. O restante saiu uns 20min depois.
Daí por frente passamos por alguns ciclistas, o Paulinho logo parou para aliviar um pouco de roupa. O carro da organização toda hora passava por nós e logo parava naqueles pontos de apoio da BR, sinal que nós éramos os últimos, mas nosso tempo estava super bem, dentro do prazo.
Numa hora o Bugrão passou e deixou cair a caramanhola, disse a ele poderia seguir que eu pagava ela, fiquei para trás e minha luz fraca me deu um pânico, quase me arrependendo de ter ficado para trás, mas o Paulinho me esperou e logo alcançamos o Renato, passamos no pedágio e tinha uns ciclistas parados mas nada do Bugrão, segui com a caramanhola na mão na esperança de alcança-lo logo.
Perto de onde saí da BR 101 o Renato me perguntou quantos km já rodamos, falei pra ele que eram 463, pela pergunta senti que ele estava querendo desistir e logo parou e disse que não dava mais, falou que iria até o próximo posto e aguardaria o resgate do carro de apoio, eu e o Paulinho tentamos fazer com que ele seguisse, mas também respeitamos a vontade dele, pois somente ele sabia o que estava sentido naquela hora.
Despedimo-nos e seguimos, menos mal que logo adiante tinha um carro da organização parado, falamos com o voluntário e o mesmo disse que levaria o Renato e sua bike, agora sim, deu para seguir mais tranquilo sabendo que o amigo estava bem encaminhado. Aprendi com o Deivi Schiochet e o Hamilton Dinarte quando fizemos o 1000km de Floripa a seguinte frase “tem que ser macho pra fazer uma prova dessas, mas tem que ser mais macho ainda para desistir”, com certeza não é uma alternativa fácil. Claro que no sentido figurado da coisa, pois várias mulheres também fazem este tipo de provas.
Ao sair da BR 101 uma forte neblina atrapalhava a visão, parecia uma garoa fininha, e essa neblina nos acompanhou até o final da madrugada.
O Paulinho me perguntou “E aí alemão será que dá?” paramos num local iluminado para ver que horas fecharia o próximo PC e chegamos a conclusão que daria, Já não se tinha mais força para aumentar o ritmo, o jeito era ir de boa e engolindo os trechos que vinham pela frente.
No trecho dos últimos 12km até Taquara o sono era quase que incontrolável, as vezes chegava a sonhar rapidamente, vendo que não estava aguentando desci da bike e falei que tinha que dar uma dormidinha, olhava para um lado e para outro e nenhum lugar para se atirar, o acostamento estreito e com vários carros passando seria suicídio se atirar por ali mesmo, caminhamos um pouco e depois seguimos pedalando, eu dava uns gritos para ver se espantava o sono, olhava no GPS e Taquara não se aproximava, mas logo chegamos aos trancos e barrancos no PC.

PC 9 – Km 193 – 7h43min –Taquara, Comi um sopão rapidamente e logo escorei a cabeça na mesa apagando de vez, era muito sono. 8h fui acordado pelo Paulinho e já estava zerado novamente.
Saímos com os amigos de São Paulo, o João estava mais inteiro, porém o Giuliano estava com dor no joelho, falei que nós também não iriamos muito forte nos 85km finais, como o próximo pc era em Novo Hamburgo e não tinha horário de fechamento, só selfie, o negócio agora era completar a prova até ás 14h.
Aquele trecho de Taquara até Novo Hamburgo com algumas subidas ia desgastando mais ainda, mas aos poucos o terminamos e com sol aparecendo já deu outra animada no vivente.

PC 10 – Km 555 – 10h21min, Catedral em Novo Hamburgo, o Carro de apoio já estava ali nos esperando e aliviei umas roupas, ainda estava frio, mas com o sol amenizava um pouco. O Paulinho metia uma pressão para logo seguirmos, não dei muita bola, queria comer algo e sabia que com o horário a nosso favor os últimos 45km daria pra fazer com um pé nas costas.
Logo chegaram o trio Vitor, Bugrão e Julio, esperamos eles e assim seguimos até o final.
Nas ruas em Novo Hamburgo havia algumas pessoas fazendo sua corrida matinal e nós num tom de ironia comentávamos “são uns loucos, correndo domingo essa hora da manhã num frio desses” e nós certinho da cabeça desde sexta feira na rua.
Antes de entrar na rodovia do parque nos juntamos a outros ciclistas, agora já num clima de final de prova.

Parada rápida para a selfie e mais fotos na ponte estaiada próximo a Arena, nessa hora já estava bem novamente e antes de entrar no DC Navegantes vi que o strava marcava 599km, ainda fiquei dando voltinhas na frente para que chegasse aos 600km, cada louco com suas manias.

Agradeço Deus pela oportunidade concedida em participar de provas como esta;
Agradeço a família, colegas ciclistas e seus familiares pelo incentivo;
Agradeço a Triplo XXX pelo apoio;
Agradeço a Organização Ninki da Sac e seus voluntários;
Agradeço aos amigos pela torcida e para esse audax gostaria de agradecer o amigo Igor Schrank da Academia MOVA, ele com seus conhecimentos me deu boas dicas de nutrição, acredito que fez a grande diferença compensando minha falta de treinos.

Não fiquem com medo, pois estou com vocês; não se apavorem, pois eu sou o seu Deus.
Eu lhes dou forças e os ajudo; eu os protejo com a minha forte mão.
Isaías 41:10

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