Giro do Chimarrão 3 – Relato Moises Redka

Primeiramente agradeço por tudo. Estar no RS pedalando este BRM 1.000 foi sensacional, paisagens lindas, subidas duras, descidas alucinantes, várias novas amizades, revi vários amigos de outros estados e que graças a Deus todos conseguimos completar esta prova.

Fiz um não tão breve descritivo de como foi a prova. Apesar de ter pedalado em grupo, esta é a minha visão de como foram as coisas.

Agradeço a hospitalidade e peço que deixem os meus agradecimentos a todos que direto ou indireto trabalharam nesta prova. Todos, sem exceção, foram fundamentais para o brevet tivesse sucesso.

Por incrível que possa parecer, mas escrever um relato sobre a experiência de ter pedalado o BRM 1.000 da SAC/RS é tão ou mais difícil do que pedalar, pois foram tantas as situações que aconteceram que fica difícil criar um começo, meio e fim.

O começo desta história começou bem antes da largada, pois a preparação para esta prova começou com muitos treinos e as provas que antecederam esta última. Como obrigatório, realizei as provas de 200 e 300 pelo DAP/PR e o 400 e 600 em Holambra/SP. Fiz também algumas provas extras e o próprio Fléche Velócio como preparação para o BRM 1.000, mas sempre fica aquela sensação de que faltou algo, de que deveria ter treinado mais, porém, agora não há mais tempo para olhar para trás e sim encarar o mil de cabeça erguida e lutar até o fim.
A previsão do tempo não era nada animador, chuva para quase todos os dias da prova, particularmente não gosto de chuva, pois além de ser muito perigosa a pedalada, eu passo muito frio e isso compromete e muito o meu ritmo, inclusive já desisti de provas por questões relativas à chuva.

Chegado o esperado dia, lá estávamos os quatro mosqueteiros de Curitiba, eu, Ronildo Silva, Luiz Chagas e Rodyer Cruz, todos grandes ciclistas muito experientes. O tempo estava muito bom, sol e um pouco de calor.

Dado a largada as 07:30, o Rodyer por ter um ritmo de pedal mais forte que o nosso, sumiu a nossa vista, ficando os três a desbravar o RS. O primeiro trecho, de Porto Alegre até Pantano Grande transcorreu sem maiores problemas, o clima estava legal, o ritmo razoavelmente forte, para garantir alguma gordura e tivemos um pneu furado, do Luiz Chagas e a corrente da bike do Ronildo estava querendo estourar, então paramos e retiramos o elo da correte que estava com problemas e seguimos até o PC1 Panela Velha, em Pantano Grande com 122km pedalado. Chegamos por volta das 12:30 e no local almoçamos, descansamos um pouco e partimos rumo ao PC2 Restaurante Papagaio, no caminho o tempo já apresentava mudanças e começou a chover fraco, paramos para colocar as capas de chuvas e tocamos direto para o PC2 com 168 km onde chegamos por volta das 15:40.

Após o PC2, entramos na RS153 sentido Cachoeira do Sul para o PC3 Tenda do Naldo. A chuva deu uma trégua, a altimetria ajudou um pouco e no final da tarde/inicio da noite chegamos no PC3 com 218 km, por volta das 18:30. Neste local foi nos servido um delicioso jantar, pois a serra da Candelária já estava próxima e iríamos precisar de energias. Saímos já com a escuridão tomando conta e em pouco tempo já estávamos subindo a serra. Neste trajeto não há muito que fazer, é girar na boa e ir subindo sem se estressar. Passado a serra e já tarde da noite o sono começou a pegar forte e em nosso planejamento tínhamos nos programado para dormir apenas no PC5 em Cruz Alta com 417 km, mas optamos por parar no PC4 Ginásio Tigrão com 307 km, pois o rendimento tinha caído muito. Optamos por dormir cerca de 3 horas, porém com o movimento constante de ciclistas entrando e saindo do Ginásio, acabei dormindo muito mal, então apesar de ter descansado pouco, acho que mais perdemos tempo do que qualquer outra coisa.

Saímos de madrugada (por volta das 04:00) do Ginásio rumo à Cruz Alta, porém como a distância era longa entre os PCs, paramos para um café da manhã em um posto a beira de estrada e depois de várias horas de pedal e muito vento contra, conseguimos chegar a Cruz Alta, por volta das 10:40, onde tomamos um banho, trocamos de roupa, almoçamos e ânimo, bora pedalar mais um pouco.

Saímos de Cruz Alta rumo à cidade de Espumoso onde ficava o PC6 Restaurante do Horácio com 507 km. Chegamos à duras penas neste PC, por volta das 17:10, o cansaço já começava a cobrar um preço e já não tínhamos mais estômago para barrinhas e géis. Fizemos um lanche, tentamos descansar um pouco e mesmo contra a vontade do corpo, bora pedalar porque a segunda noite estava chegando. Da mesma forma, tínhamos nos programado para dormir em Vera Cruz no PC8 com 671 km, porém o sono cobrou um preço muito alto e com muitas dificuldades conseguimos chegar no PC7 Restaurante do Carlão com 587 km onde neste local havia uma pousada onde não tivemos dúvida, “vamos dormir aqui porque o bicho esta pegando”. Chegamos neste local por volta das 23:00. Neste local juntou se a nós o carioca Nuno e o Karim Mella e as 03:00 da madrugada já estávamos na estrada rumo a Vera Cruz. Antes de Vera Cruz teríamos que descer a serra de Santa Cruz e de madrugada fez um frio dos diabos e para piorar a coisa ainda estava garoando/chovendo fraco, ou seja, a sensação térmica estava de congelar o fio do bigode.

Mantivemos nos firme no pedal e por volta as 07:30 chegamos em Vera Cruz, onde tínhamos uma mochila com roupas novas, então aproveitamos para tomar um banho, trocar de roupa que já estava tudo molhado, tomamos um belo café da manhã em um panificadora próxima e partimos para mais 340 km de pedal.

Saímos de Vera Cruz e o tempo não era nada animador e logo após a subida de Santa de Cruz começou a chover. Paramos no pedágio para colocar a capa de chuva e tocamos para o PC9 Posto Nevoeiro com 711 km aonde chegamos por volta das 11 horas. Deste PC, iríamos para a cidade de Muçum onde ficava o PC10 com 774 km e este foi um dos piores trechos, em minha opinião, pois o acostamento era horrível (não que nas outras estradas fosse maravilhoso), o movimento da estrada era gigantesco e muitos motoristas passavam voando por nós, então o pedal não rendeu neste trecho, além é claro das subidas e do tempo que não ajudava, ora com chuva, ora parava, depois com vento e assim por diante.

Depois de 780 km, chegamos no PC10 na cidade de Muçum, quebrado de cansado, mas tínhamos que manter se firme. Neste trajeto eu acabei me estressando e até falei meio brusco com o Ronildo, portanto, peço desculpas, não foi intencional. Quando estávamos saindo de Muçum, chuva novamente, mas não tínhamos o que fazer, era encarar a chuva, as subidas, o acostamento horrível, os motoristas mal educados, enfim, era lutar contra tudo e contra todos para novamente voltar ao PC11 Posto Nevoeiro, mesmo PC da ida.

Chegamos neste local por volta das 20:00. Neste trecho, bem próximo ao PC, infelizmente o Karim Mella foi fechado por um motorista na cabeceira de uma ponte e acabou caindo, felizmente não aconteceu nada de mais grave, a não serem uns arranhões no joelho, mas que não interferiu no pedal. Chegamos no PC11 Posto Nevoeiro com 835 km e com indicativo de que viriam muitas chuvas para a noite, pois o céu era constantemente iluminado por raios e relâmpagos. Após um lanche rápido, mal saímos do PC e chuva no lombo. Passamos a cidade de Venâncio Aires e entramos na RS 405 sentido a cidade Vale Verde onde nos esperava o PC 12 no Pesque Pague Panorama com 911 km.

Com muito custo, sono e cansaço conseguimos chegar ao PC por volta das 01:00 da madrugada. Foi nos servido um delicioso macarrão com carne e aproveitamos para descansar um pouco, saímos as 02:30 com uma baita tempestade se formando, muito vento e já estava chovendo. Saímos rumo ao PC13 com 960 km, mas antes fizemos uma parada num posto à beira da estrada para fugir um pouco das fortes chuvas que caíam naquele momento. Ficamos uns 15 minutos parados, mas não tínhamos o que fazer, era encarar e tempo ruim, pois o tempo da prova se esgotava rapidamente e não podíamos correr o risco de chegar fora do tempo no último PC. Antes de chegar ao último PC furou o pneu dianteiro do Nuno, onde fizemos a troca e conseguimos chegar ao Posto Postaço com 960 km, por volta das 05:40. Acho que não precisa nem dizer o estado em que estava o pessoal, todos já estava no limite das forças e ainda tínhamos mais 50 km pela frente e o tempo máximo era as 10:30. Pode parecer muito tempo para se fazer 50 km, mas já estávamos sofrendo para andar a 18 km de média. Saímos os cinco para a última parte do trajeto e por volta das 08:30 ultrapassamos a barreira do 1.000 km e as 09:00 da manhã (73:30 no total) finalizamos a prova no DC Navegantes com 1.011km pedalado e 10k de altimetria positiva.

Em minha opinião, eu só completei esta prova porque estava pedalando com 4 grandes ciclistas, pois se estivesse sozinho, com esta quilometragem e com as condições climáticas que se apresentou, acredito que tivesse falhado.
Todos merecem os parabéns independentes de terem completado ou não, pois encarar mil quilômetros pelas estradas brasileiras requer um pouco de loucura.

Parabéns ao pessoal, sem citar nomes, da SAC, pois organizar provas de ciclismo no Brasil, com as condições que são apresentadas, são feitos digno de aplausos. Parabéns aos voluntários que nos atenderem da melhor maneira possível, pois em certos momentos, não tínhamos nem força para colocar água na caramanhola e o pessoal sempre estava de prontidão para ajudar. Parabéns ao pessoal que ficou nas estradas nos acompanhando, isso é extremamente essencial numa prova deste porte.

Agradeço de coração ao Ronildo, Luiz Chagas, Nuno e Karim Mella, muito obrigado por tudo. Vocês são foda.
Á minha esposa Elisiane, sem o teu apoio e consideração, eu sequer teria forças para encarar estas aventuras.

E o PBP esta vindo ai, bora encarar 1.200?
Moisés Marcus Retka, Curitiba/Pr.

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