Giro do Chimarrão 3 – Relato do Saul Rodrigues

O Fim de Um Ciclo

Neste ano de 2014, completo um ciclo.
Tudo, ou quase tudo na vida, tem um inicio, um meio e um fim.
Considero 10 anos o fim de um grande ciclo, de muitas sensações, aprendizados, amizades, autoconhecimento, conquistas e realizações.
Começo este relato literalmente do inicio: como você conheceu o Audax?

No meu caso, foi em um cicloturismo, subindo pela RS 0-20 até São Francisco de Paula no ano de 2004. Lembro como se fosse hoje, no segundo dia desta viagem, entre São Chico e a localidade de Tainhas (meu destino era até Cambará do Sul) já nos Campos de Cima da Serra (lugar magnífico para se pedalar, muito sobe e desce com uma paisagem que recompensa qualquer esforço por sua beleza e contemplação).

Na noite anterior, deitado confortavelmente em uma cama quentinha enquanto chovia muito, pensava agradecido por aquela chuva não ter caído mais cedo, sem saber que exatamente naquele momento vários ciclistas enfrentavam a fria e chuvosa madrugada da serra.

No meio da manhã deste segundo dia, pouco antes do paradouro Café Tainhas (local estratégico bem no meio do caminho até Cambará do Sul), vários ciclistas, de todas as idades, passam no sentido inverso ao meu, com cara de muito cansaço e num ritmo muito lento. Pensei em porque eles estarem pedalando tão lentos e com uma aparência estranha.

Logo viria saber, pois no Café Tainhas era um PC, o qual logo descobri ser um Posto de Controle onde todos deveriam carimbar seus passaportes e registrar sua passagem. Os voluntários explicaram como funcionava o desafio, à distância e que aquele era o Brevet de 300km. Ai entendi o porquê de estarem lentos e com cara de cansaço.

Lembrei a bela noite de sono, enquanto eles estavam com toda aquela chuva e frio pedalando durante 300km. Este foi o primeiro Brevet de 300km aqui no RS e naquele ano houve apenas este e um de 200km. Com muitas novas informações em mente continuei a viagem e gravei bem o primeiro site do Audax, quando a internet ainda era discada: www .audax-rs.com.br

Assim conheci o Audax, prova de longa distância não competitiva e com vários vencedores. O conceito sempre é um pouco estranho no inicio, mas depois que você encarna o espírito audacioso e prova do prazer de concluir longas distâncias em cima da bicicleta, não tem jeito, é viciante demais.

No ano de 2005 que comecei efetivamente, concluindo desde o 200km até o 600km quando o organizador era o Marcelo Luca (a Ninki já fazia parte da equipe dele) e ainda tinha música na chegada de todos os brevetados.
Naquele primeiro ano as MTB é que dominavam o asfalto. Hoje quase que a totalidade dos ciclistas opta por speed (principalmente nas distâncias maiores). A evolução em equipamentos é gritante, bem como a variedade, qualidade e quantidade. O número de participantes também cresceu em igual proporção, fazendo a modalidade grande e conhecida, graças ao trabalho quase sempre invisível de muitos organizadores e voluntários dedicados, os quais não vou citar nomes, mas que merecem muitos aplausos, respeito, admiração e reconhecimento de minha parte por ter a oportunidade de pedalar em locais muito distintos dentro de nosso estado, como nas cidades de Lajeado, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, Teutônia, entre tantas outras.

Fiz toda esta introdução para dar uma ideia de como foi bonito ter a oportunidade e privilégio de participar dos primeiros Brevets e ainda hoje, após 10 anos, continuar como se fosse o primeiro, em termos de vontade, prazer, alegria e paixão em pedalar.

Ainda melhor participar do primeiro 1000km em 2009, e dos 3 Giro do Chimarrão.
Por falar em Giro do Chimarrão, é hora de começar o relato, para não alongar demasiadamente. Esta terceira edição tinha um percurso bem parecido com os anteriores, fazendo com que a estratégia da prova pudesse ser bem pensada por saber os principais pontos de dificuldade do caminho.

Chegado o dia, quinta-feira, 09 de outubro de 2014. Acordei cedo, ás 05:15 e ainda assim consegui sair de casa apenas as 06:45, atrasado. Enfrentei todo o transito pesado deste horário e consegui chegar ao DC ás 07:25. Deu tempo apenas de ir ao banheiro, subir na bicicleta e começar a pedalar.

Largada controlada até as pontes, momento bom para conversar um pouco. Assim fomos eu, Hamilton Dinarte e o Dionatan Korb até bem depois das pontes, precisamente até uma altura da 290 ainda antes do antigo pedágio, quando furou o pneu do Dionatan. O Hamilton ficou no apoio e parti sozinho, pois queria aumentar um pouco o ritmo e porque gosto de pedalar sozinho.

Passado o pedágio logo se formou um pequeno pelotão, de uns 6 ciclistas. Estava rendendo a pedalada, o dia era nublado e de temperatura agradável, porém um pouco abafado. Lá pelos 60 km parei para me alimentar e esvaziar a bexiga, perdendo o pelotão.
Uns 10 minutos foram suficientes para comer o que eu levava na bolsa do quadro, mais uma evolução depois de tantos anos com garupa e mochila no bagageiro. Sempre fui muito prevenido e confesso ter sido difícil conseguir condensar tudo em uma bolsa no quadro, mas estou me adaptando bem ao novo estilo. Confesso que rende mais o pedal sem tanto peso na traseira da bicicleta e isso por si só compensa levar somente o estritamente necessário até o próximo PC.

Por volta do meio dia chegava ao PC 1, Restaurante Panela de Ferro, km 122. O almoço estava delicioso, com muita comida funcional, tudo que o ciclista precisava para repor as energias: frango grelhado, batata doce cozida, purê de batata, feijão, etc… e de sobremesa, salada de frutas. Depois da comilança, era hora de voltar pra estrada enfrentar os últimos 46km da BR 290.

O dia continuava perfeito para pedalar, porém não demorou muito para o vento aumentar e escurecer o céu, me forçando a parar e ensacar tudo o que não podia ser molhado, inclusive as meias. Enquanto arrumava tudo, passaram o André e o Guilherme, pessoal gente boa de Gramado. A chuva não era muito forte e não chegava a incomodar, pelo contrário, deu até uma boa refrescada e diminuiu um pouco o abafamento. Ela foi companheira até o PC2, Restaurante Papagaio, km 168 (14:21).

Alguns ciclistas já estavam neste PC, aproveitando a variedade de guloseimas do local. Não me demorei, fui apenas ao banheiro, abasteci a garrafa com água e uma pastilha de Suum e comi o que ainda tinha em minha bolsa de quadro, pois sabia que na próxima parada haveria comida de verdade.

Eram 14:35 e já saia para finalmente deixar a BR 290. Não gosto de pedalar por esta rodovia devido ao constante movimento e a alta velocidade dos veículos, já que obviamente não respeitam os limites de velocidade, muito menos os ciclistas, que tem de andar em um acostamento sujo e esburacado. Agora era a vez da BR 153, menos movimentada e com acostamento um pouco melhor, mas só um pouco.

Bem no inicio deste trecho choveu forte, em alguns momentos era chuva misturada com sol encoberto pelas nuvens. Quanto mais me aproximava da cidade de Cachoeira do Sul, mais ia diminuindo a chuva e secando a pista. Passada a cidade, já com pista seca, em uma das subidas alcanço o Fábio, com sua GT azul. Pedalávamos no mesmo ritmo e seguimos juntos.

Ele levava até um isolante térmico em seu bagageiro, algo muito interessante e útil para se tirar um bom cochilo em qualquer lugar. Lembro de dizer a ele que eu já havia até pensado em levar uma barraca, mas que devido ao peso ficaria inviável em uma pedalada de tamanha distância e altimetria.

Pouco antes do PC, seu bagageiro soltou do suporte e caiu. Como já estava próximo do PC, ele concordou em ficar arrumando enquanto eu iria na frente. Dois quilômetros a frente chegava ao PC3, Tenda do Naldo, km 218 (16:27).

Destaque para o atendimento muito prestativo do senhor Naldo e para a saborosa massa com carne moída e queijo colonial. E principalmente ao suco natural de morango, com pedaços da fruta. Estava tão bom que tive de repetir os dois. Precisava também garantir energia para a subida da serra.

Logo chegou o Fábio e o Rodyer e também não perderam tempo, foram rapidinho encher o bucho. Ainda na BR 290 e um pouco antes de Cachoeira do Sul, encontrei um ciclista de Brasília (não lembro o nome, mas ele conhecia o Tim, que pedalou o Giro II, em 2012). Conversamos sobre várias coisas durante bons quilômetros, mas como tínhamos ritmos diferentes, cada um preferiu seguir a sua maneira. Ele chegou logo em seguida, dizendo que parou na cidade para comer algo.

Devidamente alimentados e hidratados, partimos eu e o Fábio, pontualmente ás 17:00hs, para logo ingressarmos na RSC 287. Ainda bem que eram apenas 16km nesta parte, porque é muito movimentada esta rodovia e com muito ruim acostamento. Dois ou três quilômetros apenas e furou o pneu do Fábio. Ele disse que eu poderia seguir e não pensei duas vezes.

Queria muito subir a serra ainda de dia, mas sabia ser muito pouco provável conseguir chegar até ela antes da noite, devido ás condições desta rodovia e do adiantado da hora. A esta altura tínhamos sol, nesta parte nem sequer havia chovido e o entardecer era por de mais belo.

Pouco antes das 18:00hs acessei a RS400, de onde mais uns 20km se iniciaria a serra. Mantive um ritmo forte e consegui iniciar a subida ainda de dia. No Giro I e II sempre passei de dia nesta serra e sabia que o visual era compensador ao grande esforço empregado nas suas íngremes subidas. Poder subir no entardecer, com os raios laranja-avermelhados por de trás dos morros foi muito motivador e reconfortante. De um lado paredões, do outro muita mata nativa, intercalada com diversas curvas e algumas pequenas retas de inclinação alta.

Depois de 6km, no fim da serra e já no escuro, parei para regular o foco do farol e beber água, pois transpirei bastante na subida. Pelas minhas contas faltavam uns 30km até o PC. Queria tocar direto até ele, mas devido ao esforço pra chegar ao pé da serra ainda de dia e o de subir a própria, minhas energias estavam na reserva e eu sonhava com um refrigerante gelado para estabilizar a glicose em meu corpo. Tive de parar em Sobradinho, comprar uma Coca-cola e me deliciar com o que sobrou de castanhas, nozes e um pedaço de bolo.

Tem tanto açúcar nestas porcarias de refrigerante que o efeito é instantâneo. Queria apenas chegar ao PC do sono da primeira noite e pontualmente ás 21:07 encontrei o PC4, Ginásio Tigrão, Km 308.

Com a bagagem despachada no dia anterior em mãos, fui rapidamente tomar um banho. É incrível como um simples banho tem o poder de renovar as energias e tirar todo o peso de um dia intenso de pedal, sem falar em toda a sujeira acumulada da estrada, o protetor solar e o suor.

Este era um ponto estratégico da prova, por diversos motivos. A distância já passava dos 300km. O cansaço do dia começava a cobrar o seu preço, fazendo cair muito o rendimento da média pedalada dali para frente. O sono iria inevitavelmente se fazer presente a cada hora com mais força. Mas o principal motivo era à distância até o próximo PC, de 110km.

E o pior, durante a madrugada, já que este com certeza seria o trecho mais longo sem nenhum ponto de apoio, aonde se pudesse ao menos comprar uma garrafa de água. Eu já havia passado no Giro II neste percurso, porém era de dia e durante uma quente tarde de algum dia de outubro de 2012. Lembro bem que a distância e o calor cobrou seu preço, sendo preciso racionar a água ao máximo e poder completar o trajeto.

Depois do banho e de preparar todas as coisas na bike para a partida na madrugada do próximo dia, enquanto aguardava a janta (uma deliciosa ala minuta, já inclusa no pacote da organização), começaram a chegar os demais milheiros.

O Rodyer e o pessoal de Gramado iriam tocar direto até Cruz Alta. Avisei sobre a falta de apoio no caminho e a longa distância, mas estratégia cada um tem a sua, e acharam melhor ariscar assim mesmo.

Eu, depois de devidamente alimentado, fui direto ao ginásio, onde diversos colchões estavam caprichosamente arrumados esperando todos que chegavam. Muita boa a ideia deste tipo de dormitório coletivo. Existe a falta de privacidade e um pouco de barulho causado pelo entra e sai de quem chega a todo instante, mas com sono e cansado é perfeitamente possível dormir algumas horas e recuperar as energias para o dia seguinte.

No meu caso dormi apenas 2 horas, deitei ás 23:00 e levantei á 01:00. Queria ter dormido um pouco mais, só que acordei e não consegui mais dormir. O sono nestas situações nunca é tranquilo. Você esta sempre pensando no que esta por vir e no que já passou, ai é melhor levantar devagar e ir arrumando tudo para seguir caminho.

Foram apenas 2 hs, mas o suficiente para tornar a pedalada da madrugada muito produtiva. Saí do ginásio ás 02:10. Muitos ciclistas jantavam e outros chegavam nequele instante. A madrugada estava perfeita, não tinha vento, não fazia calor nem frio e a lua cheia se fazia presente ajudando a iluminar o caminho, que é muito belo, mas que por ser de noite não pude admirá-lo como merece. Muitos campos com plantações diversas até aonde a vista alcança formam o cenário.

Por volta de 4 da manhã estava passando pela ponte do Rio Jacuí. Não pensei muito, parei e fiz ali mesmo meu lanche, pois era exatamente o meio do caminho até Cruz Alta. A energia do local era única. Poder desfrutar destes momentos é que faz valer a pena pedalar longas distâncias. Afinal, em que outras condições eu passaria naquela estrada, ás 4 da manhã e pararia para comer algo em cima da ponte, contemplando o rio e o reflexo da lua na água?

Este horário sempre é crítico em relação ao sono, e desta vez não foi diferente. Sorte que não demorou para clarear o dia, porque eu já pensava até em parar para dormir novamente no próximo PC. Não foi preciso porque com o belo dia de sol que nascia o sono deu lugar a motivação para logo chegar ao PC5, Centro de Eventos, km 418 (06:55).

Andei uns 3 km a mais até encontrar este PC, pois passei direto e somente depois de passar a PRF parei para olhar o mapa e pedir informações para os moradores locais. Na volta pude ver um imenso letreiro que dizia bem grande “Centro de Exposições”.

A Maximilia, voluntária deste PC, disse que me viu passando direto, mas que nada pode fazer, pois ficava uns 500metros distante da rodovia. Cheguei com fome e logo estava com uma marmita de comida quentinha sendo devorada. Até tentei comer tudo, mas tinha tanta comida que não foi possível. Pra beber refrigerante geladinho e de sobremesa tinha até cuca, muito gostosa por sinal.

Este era outro PC em que se poderia tomar banho e dormir, tinha alojamento e vários colchões de ar à disposição. Meu sono havia indo embora junto com o despertar deste novo dia e queria apenas seguir em frente, pois sabia que teria muito chão pela frente até á noite.

Não me demorei muito e ás 07:50 já estava de partida. Quando se esta bem alerta deve se aproveitar e fazer render o pedal, porque quando a bobeira vem o ritmo cai consideravelmente. A temperatura ainda era agradável, logo no inicio do dia. O sobe e desce é constante nesta parte e a pista quase sempre muito irregular, bem como o acostamento.

O tráfego de veículos era razoável, sendo grande o número de caminhões, fazendo a atenção ser redobrada. Conforme o tempo e os quilômetros vão passando a temperatura e o abafamento foi subindo, fazendo a sede crescer proporcionalmente. Faltando uns 20km para o PC, parei em uma empresa na beira da rodovia e pedi água. As garotas da recepção, logo que entrei, pareiam ter tomado um susto. Mas também pudera, não deve ser com frequência que passam ciclistas por estas bandas.

Fizeram as perguntas de sempre e expliquei que era uma prova de longa distância, dizendo que mais ciclistas passariam durante o dia. Me deram até água gelada, que me salvou até a chegada ao próximo PC. Agradeci e segui o caminho. Não sei se realmente acreditam quando falamos sobre de onde saímos e todo o caminho que fazemos e principalmente sobre a distância, mas o importante é a boa vontade em ajudar que a maioria das pessoas demonstra em ver um ciclista na estrada, e isso não tem preço, além de ser muito gratificante, creio que para os dois lados.

Daí para frente o abafamento e o sol foram companheiros de jornada durante várias horas. Logo estava no acesso à cidade de Espumoso e mais uns 10km chegava ao PC6, Hotel do Horácio, km 505 (11:15).

Destaque para o almoço, com uma variedade grande de comidas e para as sobremesas, muito calóricas e bem doces, tudo o que os ciclistas precisam para transformar em energia. Confesso que deu vontade de comer o dobro do que realmente me alimentei, só que iria sair bem no pior horário do calor e optei por reduzir a quantidade em prol da qualidade, afinal precisava apenas dosar a energia até o próximo PC, distante cerca de 78 km.

Quanto à hidratação, isso sim me preocupava. Estava muito quente e logo depois de comer a sede vem com tudo e pedalando naquelas condições, com apenas uma garrafa de água, isso sim seria um problema. Tentei tomar e repor o máximo de líquido o quanto pude, pois também já conhecia este percurso, que também não teria pontos de apoio até Barros Cassal.

Neste PC estava o fotógrafo oficial dos eventos da SAC, o Roberto Furtado. Seu trabalho é de muita qualidade e está sempre sorridente registrando em belas imagens para recordarmos ao final das provas. Deixo meus parabéns pelo seu trabalho de fotógrafo e textos sempre qualificados e singulares em seu blog Bikes do Andarilho. E se não me engano ele é colunista e fotógrafo da Revista Bicicleta.

Feitos os registros fotográficos e no cartão de rota, ás 12:10, com muito sol e um pouco de vento, parti com destino a Barros Cassal. Muito bonita a paisagem deste local, com muitos campos verdes e rodeando os dois lados da estrada. O bom era que havia muito pouco tráfego de veículos. O acostamento, ao contrário de outros pontos, era até melhor de se rodar do que as imperfeições e remendos da pista, durante uns 20km mais ou menos.

Fui dosando a água com pequenos goles a cada 5km, mas estava muito baixa a umidade e o calor fazia a sede pedir mais água a todo instante. Eu sabia que não haveria nenhum tipo de comércio, restando apenas algumas casas perdidas a cada vários quilômetros umas das outras. Parei em uma destas casas, mas estava toda fechada, não havia ninguém ou não quiseram atender. Ainda tinha uns 200 ml de água, já quente em minha garrafa, mas faltavam cerca de 40km.

Sabia que a última chance seria a administração de um silo, que havia no acesso a Soledade, no primeiro dos dois trevos que viria pela frente. Chegando neste local, a moça foi muito prestativa e me deixou á vontade para encher a garrafa em um bebedouro, no qual pude escolher entre água gelada ou natural. Quase não acreditei, enchi bem rápido e tomei com muita vontade uma garrafa inteira. Abasteci novamente e agora sim teria água de sobra.

Novamente expliquei o porquê estar pedalando e mostrei até o mapa para não passar por mentiroso, disse que mais ciclistas passariam. Se mais alguém parou ali, acho que conseguiu matar a sede com água geladinha. Deste ponto eram mais ou menos 38km e o vento ficou lateral e por vezes um pouco contra. Já passei algumas vezes por este caminho, mas a beleza sempre chama a atenção e ajuda há passar o tempo. Continuam os campos verdes até aonde a vista alcança. Sem sede e com a energia do almoço quase acabando, cheguei ao PC7, restaurante do Carlão, km 586 (15:35).

Mais um prato pronto de comida me esperava nesta parada, ao qual não recusei, com uma coca-cola de litro bem gelada. Também tinham muitos doces de sobremesa, e meu escolhido foi uma torta de bolacha, muito boa. Enquanto almoçava pela segunda vez no dia, ás 16:00hs, começou a nublar e o sol foi se despedindo aos poucos, que alívio. Havia previsão de chuva para o final desta tarde e inicio da noite.

Com tudo pronto, ás 16:30 comecei uma das melhores partes em termos de asfalto, beleza e prazer em pedalar deste Giro. O caminho até Vera Cruz é um sobe e desce constante até chegar à descida da serra, mas muito gratificante por poder se pedalar com confiança, sem buracos no acostamento ou na pista e muito pouco movimento de veículos. Logo após o trevo de acesso á Gramado Xavier, bem no inicio da subida mais longa desta parte, de uns 2,5km, começou a chover. Até pensei por um instante em reclamar, mas lembrei do calorão que havia passado pouco tempo atrás e achei melhor agradecer por estar chovendo, mesmo tendo de parar para ensacar tudo que não queria ver molhado. Era uma chuva fraca, que serviu apenas para refrescar, não atrapalhando em nenhum momento ou causando insegurança.

Rapidamente uma densa neblina tomou conta em vários pontos da estrada, fazendo a atenção ser elevada e prometendo uma descida da serra com as mãos no freio. A exemplo da serra do dia anterior, esta também poderia ser feita ainda de dia, embora desta vez descendo. Tive muita sorte, pois escapei da chuva e neblina mais fortes e consegui descer ainda de dia, bem no fim do dia, é verdade. Esta descida tem seu inicio com muitas curvas, mas com piso seco ficava mais fácil controlar a bike. Mais ou menos no meio, um grande monte de terra e pedra de um desmoronamento de meses atrás fez a bike parecer estar em uma trilha de MTB, só que por poucos metros, menos mal.

Passada a descida da serra, logo anoiteceu e esta parte é totalmente plana e deserta até o entroncamento com a RCS287. Não chovia, mas estava um pouco abafado e viam-se relâmpagos ao fundo, no sentido de Candelária, a oeste. Algumas voltas até a chegada em Vera Cruz, com direito a 500m de estrada de chão e finalmente estava no PC8, Clube Vera Cruz, km 671 (19:57).

Era hora da segunda noite de sono, ou melhor, algumas horas de descanso para rumar aos últimos 300 e poucos km. Muito boa à receptividade do pessoal do Várzea Bikers, que estavam de donos do ginásio e deste PC. Destaque para o Claiton e o Thiago, que salvaram meu banho, emprestando toalha, sabonete e roupas. A Marga foi até buscar refrigerante. Voluntários deste nível fazem as coisas voltarem ao seu normal com improviso e dedicação. E tinha o Udo, figura ímpar e marca registrada com sua barra forte nas provas.

Tinha pizza, refrigerante e mais cuca para se deliciar neste PC. Depois do banho e satisfeito alimentarmente, fui deitar e dormir para descansar e recarregar um pouco as energias. Deitei umas 23:00 e acordei 00:50. Menos de 3 hs, mas pretendia sair até ás 2:00, então me alonguei um pouco durante alguns minutos, bem lentamente, enquanto despertava por completo.

Terminei de arrumar tudo na bicicleta e comi um pedaço de lasanha com café preto. Enquanto lubrificava a corrente da bike, na rua, pude notar a diferença de temperatura, pois fazia até frio, e o chão estava molhado, embora naquele momento não chovesse.

Agradeci aos voluntários e ás 02:13 iniciava o terceiro dia deste Giro III. Estava realmente friozinho naquela madrugada, mas muito bom para pedalar, sem vento e com pouco movimento na RSC 287, devido logicamente ao horário. Bem aquecido após a subida da serra de Santa Cruz do Sul, bastava deixar a bike descer as sete curvas em direção ao acesso para Venâncio Aires. Todos os pontos de apoio fechados pelo caminho, mas não precisava de nenhum deles neste momento, precisava apenas chegar até Lajeado, pois sabia haver um posto 24hs, o mesmo que foi feito de PC nos 600km, e que poderia ser utilizados como PA desta vez. Novamente era o horário pior do sono, por volta de 5 da manhã e eu já sonhava com uma xícara de café com leite. Parei neste posto e logo já estava tomando o merecido café, junto com bananas, paçocas e bolo que peguei em Vera Cruz.

A parte de Lajeado é bem iluminada e após o café nem deu tempo de sentir sono novamente. Mais um dia nascia e desta vez bem nublado. O vento era fraco, porém favorável, fazendo o pedal render bem, mas trazendo dúvidas quanto á volta, em que certamente com o avançar do dia aumentaria de intensidade e seria contrário.

Queria ter chego ao PC, mas ao passar pelo Pedágio ainda em lajeado, o chamado da natureza foi mais forte e precisei correr ao banheiro. Depois de tanta comilança, uma hora tem de sair, e não podia mais esperar. Feito o serviço, retomei o pedal mais leve e logo estava passando pela cidade de Encantado.

Os voluntários da organização passaram de carro e disseram que havia trocado o PC em Muçum, e seria logo na entrada da cidade. Rodei uns 25km a mais até achar este PC e só consegui a confirmação de que era o local certo quando o dono do hotel Engu (que serviu de PC nos 600km e em várias outras provas) ligou diretamente para o Posto e confirmou ser lá mesmo o local. Detalhe, eu já havia ido até quase o acesso de Muçum e retornado, pensando estar no local errado. Daí lembrei do pessoal do hotel e pedi ajuda e por sorte o dono do hotel tinha até o telefone do tal posto.

Agora sim, sabendo estar no caminho correto, retornei por onde já havia passado até chegar à cidade de Muçum, PC10, Posto Ipiranga (Posto do Viaduto, nunca mais esqueço este nome), km 779 (08:18).

Fui apenas ao banheiro, comi duas bergamotas e ás 08:30 estava retornando. Andei 3km e passei pelo Rodyer. Perguntei se ele sabia onde era o PC e ele disse que sim, falei que era só mais 3km. No retorno, passando novamente pelo Hotel Engu, tomei outro café com leite e duas torradas. As energias estavam na reserva com o percurso extra e o sobe e desce.

O retorno, até passar a cidade de Lajeado e até um pouco depois, foi bem estressante, devido ao grande número de veículos de todos os tipos: carros, caminhões, ônibus e até tratores. Fica gritante a falta de respeito com o ciclista, mesmo você estando totalmente sinalizado, tocam por cima. É a lei do mais forte, infelizmente.

Queria passar o quanto antes e sair desta rodovia o mais rápido possível. Até se confirmou o vento contra, mas era fraco e somente no inicio do retorno, não chegando a atrapalhar. Parecia que iria chover a qualquer momento, pois estava muito nublado, um dia cinza. Rendeu bem esta parte e logo chegava ao PC11, Posto Nevoeiro, km 847 (11:21).

Mais duas xícaras de café, desta vez preto mesmo, junto com bolo, banana, castanhas e nozes fizeram a tarefa da reposição energética (mais uma torrada que sobrou da parada anterior). Avisei para alguns ciclistas que estavam subindo para Lajeado tomarem muito cuidado e ter atenção redobrada devido ao intenso movimento na estrada. Tive sorte de passar na ida de madrugada, quase sem trânsito, ficando apenas com a volta muito estressante.

Conversei um pouco com a Ninki e tirei as últimas dúvidas sobre o que fazer nos próximos Pcs e na chegada ao DC. Ela me ofereceu até almoço, mas apenas confirmei se teria aquela massa de sempre no PPP. A resposta foi afirmativa e optei por almoçar mais adiante. Reabasteci minha água e ás 11:48 estava na estrada novamente.

Sem nada de vento e rendendo acima do esperado logo estava no acesso á Vale Verde, RS 405. Este trajeto é clássico e faz parte desde as primeiras provas de Audax, sendo muito belo e tranquilo, devido ao pouco movimento. Pode-se relaxar e deixar a bicicleta mais solta, sem aquela tensão necessária nas rodovias movimentadas. O único porém é que mesmo sabendo direitinho à distância e os pontos de referência deste caminho, que quase dá pra fazer de olhos fechados (forcei agora) sempre demora muito até chegar o PPP. Principalmente depois de mais de 900km acumulados.

Estava cansado, mas satisfeito com o rendimento do pedal. Olhava para trás e via muitas nuvens escuras. Com certeza quem estava em direção de Lajeado estava pegando chuva, o que confirmei depois da prova. Sem chuva nem vento, até o sol tentou dar as caras, mas foi só uma tentativa, pois acabou derrotado pelas nuvens. Sobe e desce e finalmente chego ao PC12, Pesque e Pague Panorama, km 909 (14:01).

Estava com fome novamente e a massa do PPP sempre renova o ânimo e dá forças para seguir nestes últimos 103km. Teve até repetição do molho de carne, muito saboroso. Deu até tempo de tentar trocar de bicicleta com um dos meninos, de 4 anos, que recém havia ganhado sua primeira bicicleta, ainda com rodinhas. Meu poder de convencimento não foi suficiente e não houve meio de mostrar que minha bicicleta era melhor que a dele. A ingenuidade das crianças é fascinante.

Depois desta brincadeira sai mais leve (mesmo a massa tendo preenchido o buraco em meu estômago) para a parte final. Pedalar é nada mais que um modo de retornar a infância, só que como adultos, com bicicletas maiores e mais tecnológicas, porém o espírito deve ser mantido, para sempre ser divertido como em uma brincadeira de criança.

Passado o momento filosófico, continuo no mesmo embalo, sem chuva, vento, nem pneus furados. Tem algumas leves subidas até a ponte do Jacuí, mas nada desgastante. Próximo a São Jerônimo, começa a aumentar naturalmente o movimento na estrada. Logo estava em Charqueadas e no último PC 13, Postaço, km 958 (16:31).

Compro o último café da jornada, peço a nota para registrar a passagem no local e me sento na cadeira do lado de fora da loja de conveniências. Aprecio este último café e penso um pouco em tudo que já passou até ali. Faltavam apenas 53km.

Sem muita demora, saio ás 16:48. Até chegar à BR 290 continua calmo o movimento. A partir dela, tudo muda. O final de todos os Giros passou por esta rodovia e por mais acostumado e sabedor dos seus perigos, sempre se deve ter muito cuidado com a sujeira no acostamento e os muitos caminhões, carros, ônibus e todo tipo de veículo que por ela transitam. Menos mal que são apenas 18km, e como são longos.

Ao chegar no viaduto, que alivio. Apesar do tráfego ainda mais carregado, o acostamento melhora sensivelmente. Já dá pra enxergar a primeira das pontes. Logo vem a segunda. Mais uma e a do Guaíba para finalizar.

Já quase noite, completo mais de 1000km (pelo meu odômetro, 1039) ás 18:51.

Deixo meu cartão de rota com o responsável pela segurança, registro a imagem da chegada e volto pra casa muito feliz!!!

Agradecimentos:

Primeiramente a minha companheira, Aline, que está sempre ao meu lado e compreende os dias de ausência, sempre torcendo, apoiando e ajudando. O Giro também é teu, Te Amo Muito!!!

Á todos voluntários, que possibilitam a realização da prova com seu trabalho muitas vezes cansativo, durante longas horas. Eles podem até cometer equívocos, mas tenho certeza que nunca propositalmente e sempre estão prontos para ajudar. Todas tem minha admiração e respeito, obrigado por tudo.

A Ninki, que consegue mobilizar tanta gente qualificada em torno de um objeto simples e muito vital: a bicicleta. Sou um amante dela e sinto muito orgulho em ver uma prova de tamanha logística com muito mais acertos do que erros. Concordo quando tu fala que só erra aquele que faz alguma coisa.
Parabéns por mais este Giro do Chimarrão!!!

A todos que pedalaram e tentaram, concluindo ou não.

Afinal, uma das melhores definições que vi durante estes anos do que é o Audax:

“Uma prova, muitos vencedores”

2 ideias sobre “Giro do Chimarrão 3 – Relato do Saul Rodrigues

  1. Anônimo

    Muito motivador o seu relato! E parabéns pela conquista! Lendo o seu texto, me transportei para as estradas e lugares que você passou. Quem sabe um dia, não torno isso realidade e, com certeza, lembrarei do seu relato! Obrigado!

    Responder
  2. antonio pedro chaves figueiredo

    Pô cara um diário fantástico. Confesso que em muitos trecho da escrita, comovente….muito bom! Só queria saber qual o método de escrita…todo o fim do dia escrevia alguma coisa, pergunto isso, pela riqueza de detalhes. Meus parabéns pela conquista…

    Responder

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