Ernani Tomedi – relato do Giro do Chimarrão 3

Ernani tomei a liberdade de publicar uma imagem de vocês quatro, já que foi o grupo, mais fechadinho que vi durante o trajeto.

Prefácio
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Oi pessoal. Para quem não me conhece, meu nome é Ernani e este é um relato de um ciclista que, desde o final de 2013, estabeleceu uma meta de fazer todas as provas de Audax até os 1.000 Km. Loucura? Insanidade? Quem sabe um pouco de cada, mas o maior desafio era mostrar para mim mesmo até onde eu poderia chegar.
Já havia feito algumas provas de 200 e uma de 300Km. Admirava quem completava 600Km e acreditava que nunca chegaria nesse nível. Felizmente, o mundo é dinâmico.
Muitas pessoas me incentivaram, outras me acompanharam, mas houve uma pessoa que me inspirou muito para isso, seu nome é Rodrigo. Infelizmente, por motivos profissionais, ele não pode me acompanhar neste ano de 2014, mas treinou muito em minha companhia. Nada mais justo que dedicar um pedaço de cada prova que conquistei a ele.

Capitulo 1 – A Temível Montanha de Candelária
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Após uma noite razoavelmente dormida, as 7h:30min parti com os amigos Alexandre, Fernando e Paulo para essa, digamos, insanidade. Os primeiros 260Km foram bem tranquilos. Essa era uma parte com muito poucas subidas e o esforço não foi grande. Apenas o Alexandre furou um pneu e que demoramos um pouco para consertar, mas fato que foi compensado por um bom almoço em Pântano Grande.
Neste trajeto da BR290, acho que descobri a solução de todos meus problemas, comprar uma buzina bem forte. É incrível a quantidade de buzinadas que ouvi de caminhões quando passavam por nós, mesmo eles estando distantes de nossas bicicletas. Acho que buzinar recapa o acostamento, tapa buracos na rodovia e torna a estrada segura. Infelizmente não voltei atrás para ver se isso era verdade, tomara que sim.
Gostei muito quando entramos na estrada para Cachoeira do Sul, muito mais tranquilo. A tensão voltou quando acessamos a rodovia entre Santa Maria e Candelária devido ao movimento e pelo fato de estar anoitecendo.
Foi então que, novamente, adotamos outra rodovia entrando em Candelária. O tráfego de veículos quase inexistia. Como uma das baterias do meu farol havia pifado, andei vários quilômetros na luz de meus amigos para economizar.
Mas logo em seguida ela apareceu. No escuro, sorrateira, quase invisível, colocou-se em nossa frente. A famosa subida de Candelária estava nos desafiando. Foram alguns bons quilômetros de força no pedal. O GPS mostrava inclinação de 10%, 12%, e eu firme sobre a bicicleta, mesmo com mais de 200Km pedalados pesando nas costas. Em torno das 0h:30min ela se rendeu e ficou para trás. Como é boa a sensação da batalha vencida, mas sabia que a guerra estava longe do fim. Então era hora de descansar, e isso aconteceu as 2h em Arroio do Tigre. No ginásio de esportes da cidade a organização da prova nos forneceu um jantar, banho e um colchão para dormir. Era tudo que eu precisava.

Capítulo 2 – Serra, discussões e temperatura
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5h levantei com meus amigos. Bicicletas prontas, seguimos adiante. As 7h:30min, depois de passar pelas mais belas paisagens de montanhas, serração e campos de trigo e arroz, paramos para tomar um bom café da manhã em Estrela Velha. Como é bom pedalar de manhã cedo, a luz do amanhecer cria cenários inspiradores e a temperatura na primavera é muito agradável. 8h:30min seguimos adiante para 80Km de apenas campos.
No caminho para Cruz Alta, no meio do nada, o Alexandre quebrou um raio. Raios, pensava ele neste momento. Ajudei-o a tirar o raio quebrado e centrar a roda, colocando-o na prova novamente. Como me senti feliz por ter sido útil. Logo depois, ele pediu para todos andarem juntos, pois estávamos nos afastando sem perceber. O problema é que eu comecei a manter uma boa média pedalando, e sabia que isso me faria ganhar tempo lá na frente. Logo, o Paulo e eu estávamos pedalando alguns bons minutos na frente.
Paramos em Cruz Alta, próximo ao meio-dia, para almoçar. Novamente, a organização nos forneceu almoço e um local para descanso. Não haviam mesas para almoçar, então nos sentamos em um banco na frente da casa da organização e comemos nossas marmitas ali, sobre o nosso colo, sob uma árvore. Esse momento me remeteu a um passado, onde minha família me levava para à beira de um rio para pescar e nadar e depois almoçávamos ali mesmo, na própria beira sobre alguma pedra ou embaixo de uma árvore. Dez minutos de um passado feliz me completavam neste momento.
Logo em seguida chegaram o Alexandre e o Fernando. Quase passaram a entrada do PC, sorte que os vi e pude avisá-los. Enquanto eles almoçavam, eu passava um filtro solar. Mas tive que sair correndo do PC pois uma forte alergia a gramíneas me pegou desprevenido neste momento. Logo em seguida na estrada, voltamos todos a nos encontrar.
Mas meu pedal continuava forte, e hora o Paulo me seguia, hora eu seguia ele. Quando paramos em um posto para beber algo, pois a temperatura estava beirando os 41 graus, tomei a decisão de conversar com todos de que achava que a hora de cada um fazer seu ritmo havia chegado. Como é ruim tomar decisões, pois nem todos pensam igual e isso pode gerar discussões. Como as guerras existem por causa dos ideais diferentes, o Alexandre se manifestou, e com uma posição de liderança, comentou sobre minha decisão. Aqui quebramos o grupo e a proposta de andarem todos juntos sempre. Não foi fácil, mas eu precisava disso.
Separados, chegamos juntos ao PC de Espumoso. Discussões e críticas são partes de uma evolução, e o Alexandre e o Fernando aceleraram o pedal depois disso e acompanharam o Paulo e eu, chegando a estar na nossa frente.
De Espumoso a Soledade o acostamento era sensacional. Acho que só tinha visto isso em documentários do Tour de France, mas não aqui no RS. O acostamento era tão bom que os veículos trafegavam por ele ao invés de utilizar a rodovia. Ah se eu tivesse a buzina que resolve todos os problemas.
Entre Soledade e Barros Cassal, muitas vezes pedalamos pela rodovia mesmo. Certa hora, faltando 13Km para o PC da janta, no meio do nada e cercado por uma baixa relva, fiquei uns 200m atrás do grupo. Foi quando ao meu lado algum animal começou a correr. Ouvia apenas seu barulho pulando os matos à sua frente e me cercando. Meu coração disparou. Posso dizer que fiz os 200m mais rápidos da minha vida e passei todos do grupo. O que era? Se tivesse ficado lá talvez não teria escrito este relato. Se alguém um dia descobrir, por favor me diga.
Depois da janta, enfrentamos 25Km de uma serrinha nada fácil. A temperatura baixou muito e começou a garoar. Nesse momento eu começava a dormir sobre a bike. Como é horrível lutar contra o sono, é uma batalha perdida. Certa hora me deitei em uma estrada de cascalho, mas meus amigos não me permitiram ficar ali muito tempo. Logo adiante, achei uma parada de ônibus, mas novamente meus amigos não me deixaram ficar ali. Disse para irem sozinhos, não se preocuparem comigo pois conhecia o caminho, mas não teve jeito. Depois de finalmente descer a serra, dormimos 5min no asfalto, em um lugar seguro, antes do PC em Vera Cruz. No caminho ainda vimos um corpo assassinado, e finalmente chegamos no PC de Vera Cruz.
Minha previsão era de chegar as 3h, mas infelizmente chegamos as 5h. Nem tomamos banho, deitamos nos colchões como chegamos, cansados e um pouco molhados. Mas que se dane, tínhamos que dormir.

Capítulo 3 – Lajeado sumiu!!!
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Sem um banho e com a adrenalina correndo no sangue, não consegui dormir em Vera Cruz. Deitei até as 6h, levantei, tomei um banho e desfrutei de um bom café. Acordei meus amigos as 7h:30min e esperei por eles. 8h:30min partimos, muito tarde para meu itinerário. Na largada, meu GPS resolve travar. Já tive o mesmo problema com o Garmin Edge 800 em pedaladas com mais de 600Km, tanto que antes do Audax entrei em contato com o suporte, mas pelo visto eles não resolveram. Aliás, já repararam como o suporte destas grandes empresas tem sempre as mesmas respostas? Depois da prova entrei em contato mais três vezes e recebi sempre a mesma solução, com a mesma quantidade de parágrafos, a mesma pontuação, etc. Talvez seja paranóia minha, mas enfim, resetei meu aparelho e seguimos em frente.
Chegamos ao PC de Venâncio Aires as 9h. Comentei que seria interessante comer algo rápido e partir. Entretanto o Alexandre disse estar com fome e gostaria de descansar um pouco ali. No final concordei, pois o sono estava me consumindo. Passado das 10h, prestes a partir, o Alexandre descobre mais um raio quebrado na sua roda. Eu não tinha o que fazer, aliás, nem pensar direito eu conseguia. Felizmente, uma integrante da organização estava por perto e sugeriu um contato com uma loja na cidade. Enquanto o socorro estava a caminho, eu avisei meus amigos de que iria seguir sozinho mas devagar, e que eles me alcançariam em seguida. Eu estava um tanto desnorteado mas havia dividido um Red Bull com o Fernando. Tinha consciência dos meus atos e sabia que se ficasse parado seria pior para mim.
Parti, sozinho em direção a Mussum. 10Km depois eu estava muito bem acordado. Pensei comigo: -Quer saber, acho que tenho de seguir firme para Mussum. E levantei a média da velocidade. 13h:30min eu estava assinando minha passagem. Na volta encontrei meus amigos descendo enquanto saboreava uma boa salada de frutas com sorvete em uma tenda de Mussum com outro colega ciclista.
Continuei sozinho na volta para Venâncio Aires. Nas duas parada que fiz para comer, passavam-se apenas 5 minutos e eu já estava pedalando novamente. Só que chegou um momento em que o corpo pediu um descanso, afinal, o sono voltou para me fazer companhia já fazia algum tempo. Estava aguardando passar por Lajeado, pois sabia que depois dessa cidade faltaria pouco para o próximo PC. Mas Lajeado não chegava nunca. Olhei no GPS se faltava pouco para chegar em alguma cidade. Percebi que há 2km à frente estaria entrando em um trecho urbano. Lajeado, pensei comigo em um breve momento de felicidade. Entretanto, quando entrei na área urbana, me deparei com um posto de gasolina e uma camionete transportando uma bicicleta à sua frente. Estranho, eu já havia visto esse veículo na prova. Quase passando, olhei novamente e percebi que era o PC de Venâncio Aires. Maravilha, vou jantar e descansar afinal. E Lajeado? Nem vi passar.

Capítulo 4 – A última noite
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Depois de uma torrada e meia hora de sono, estava prestes a partir quando o Paulo apareceu, sozinho. Pediu para mim aguardar e quando estávamos partindo chegou o Fernando. Ele também pediu para aguardar, entretanto eu havia tomado outro Red Bull e que já estava fazendo efeito. O Paulo ficou com o Fernando e eu então parti sozinho novamente no início da noite.
Chegando no posto 5km antes de acessar a rodovia para General Câmara, o Paulo me ligou. Estava perdido na rótula da saída de Venâncio Aires. 3 ligações depois de eu quase os ter mandado para Montenegro, eles encontram a rota e me encontram no posto. Estávamos os 3 juntos, já na estrada de Vale Verde, quando o Fernando recebe uma ligação de sua esposa. Ela pediu para ele esperar pelo Alexandre que estava há alguns quilômetro atrás. O Fernando, visivelmente cansado, pediu para esperarem. Infelizmente eu não tinha mais condições de parar, o sono estava fechando o cerco contra minha mente, eu não poderia parar.
Novamente segui sozinho, economizando farol porque me restava apenas uma bateria, usada boa parte na noite anterior. Era apenas eu e a fiel bicicleta no meio da rodovia, me orientando pelas linhas de sinalização. Hora trovejava, hora passava um carro, e eu conseguia ver o estado da rodovia em minha frente. Perigoso? Muito, mas eu estava saboreando esse momento. Mas na entrada de um pequeno vilarejo o sono me obrigou a parar em um posto de gasolina. Sentando em uma cadeira, adormeci por meia hora. Mais tarde, quase chegando no PC do Pesque Pague Panorama, algumas vezes achando que havia errado a estrada, um carro da organização enconsta do meu lado. Me perguntaram se estava tudo certo, respondi que sim e perguntei dos amigos de Bento Gonçalves. Estavam bem atrás, foi a resposta que recebi.
No PC, jantei as 11h e tentei dormir por 1h. Infelizmente com o pessoal da organização conversando em tom alto e o frio do local, foram 60 minutos perdidos. Nessa hora comecei a ter hipotermia. Meu corpo tremia. Hora de pedalar pensei, e segui adiante.
10km depois trovejava sem parar, e meu companheiro inseparável, o sono, estava forte comigo. Foi quando avistei uma pequena parada de ônibus, toda feita de madeira e fechada. Ali encostei a bicicleta e programei o despertador para 15min. Logo em seguida começou a chover fraco e um gostoso barulhinho de chuva batendo na madeira era ouvido por mim. Esse foi o meu sono de 1 milhão de dólares, aquela parada de ônibus havia se transformado em um sítio de dezenas de hectares. Eu era o sujeito mais feliz do mundo naquele momento.
Logo em seguida estava na estrada novamente. Descobri que um cochilo de pouco tempo é o suficiente para te deixar bem disposto novamente. Segui por mais 30Km, quando precisei descansar de novo. Desta vez a parada era de zinco. Não tinha o mesmo aconchego mas era o que eu precisava. 15min depois, ao me preparar para partir, o mundo resolveu desabar em forma de chuva. Que aguaceiro e quanto raio trincava aquele céu. Resolvi esperar alguns minutos. A chuva diminuiu de intensidade, mas eu comecei a ter hipotermia novamente. Tive que seguir abaixo de chuva, mas era preciso.

Capítulo 5 – Enfim, o fim.
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Mais adiante o Paulo e outro ciclista me encontram no caminho. Alguns poucos quilômetros depois estávamos no PC de Charqueadas. Um bom café e um lanche e logo depois estávamos na estrada. Percebi que o meu amigo sono cercava o outro ciclista também, pois em certa hora, ele quase se jogou para cima de mim sem perceber. Pedalamos até o pedágio abandonado na BR290 e dormimos por 15 min lá.
Voltando ao pedal, agora todos bem acordados, me desgarrei do grupo na BR. Queria sair o quanto antes dessa estrada pois não gosto muito de seu acostamento e ela é muito movimentada. Já na BR116, aguardei o Paulo e seu novo companheiro, pedalamos mais um pouco juntos quando o outro sujeito parou. Ele sabia que seu grupo não estava muito longe dali e decidiu esperar por eles. Nos despedimos e o Paulo e eu seguimos o pedal até o DC em Porto Alegre. Confesso que a conversa estava tão boa que nem percebi que percorremos 15km. Quando olhei para frente vi a ponte do Guaíba, agora pode até quebrar a bicicleta que eu levo ela nos ombros.
Ao chegar no DC, final da prova, ajoelhei, olhei para o céu e agradeci. Depois dei um forte abraço no Paulo e o cumprimentei. Minha jornada terminava aqui e eu me sentia bem. Mas ainda faltavam o Alexandre e o Fernando, alegria que se completou 1h depois.
Meus amigos e eu vencemos o gigante de 1000Km.

A Organização
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Nem Jesus agradou a todos, essa é a frase que sempre ouço falar quando resolvo fazer alguma coisa. Mas nesta prova tenho que elogiar a organização da SAC porque ela foi simplesmente perfeita. Alguns fatos que me levam a essa decisão:

– No PC de Arroio do Tigre, fui recebido com uma janta, vestiário, um colchão para dormir e… uma toalha de banho que eu não tinha levado. Sensacional.
– No PC de Vera Cruz, fui recebido com um vestiário, um colchão para dormir, um café da manhã e… uma tolha de banho de novo!!! Esse banho me renovou as energias.
– Em Cruz Alta tive um dos mais agradáveis almoços durante uma prova de Audax ao qual já participei.
– Durante o pedal, alguns carros da organização passaram por mim, inclusive na madrugada, e perguntaram se estava tudo ok. Mesmo eu não sendo o primeiro, nem sendo o último participante.
– Em alguns PC’s, mesmo estando fisicamente bem, os organizadores/fiscais carregavam a bicicleta para mim sem eu pedir e sempre me incentivavam.
– Fazer uma prova dessas, nas estradas do nosso estado, é mais do que apenas organização, é uma paixão.

Deixo aqui meu abraço e saudações para todos os organizadores. Saibam que vocês me ajudaram a realizar um sonho.

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