Iluminação para Audax: como escolher, instalar e usar faróis e luzinhas

Nesses dez anos de evolução, o Audax no RS acompanhou uma transformação marcante em se tratando de iluminação noturna. No início, eram raros os que tinham luzes realmente boas, e as poucas que havia, a maioria halógenas, chamavam logo atenção. A maioria das bicicletas nem ao menos tinha farol, e não era incomum ciclistas fazendo cicloturismo à noite totalmente no escuro, ou com luzes que seriam consideradas obviamente insuficientes para os padrões de hoje.

Entretanto, já nos primeiros anos do audax, essa situação começou a mudar, devido ao surgimento dos LEDs, que aumentavam muito a durabilidade das pilhas, e que rapidamente tornaram obsoletas as lâmpadas com filamento. Com o aumento progressivo da potência dos LEDs, foram surgindo modelos cada vez mais potentes de faróis e lanternas ciclísticas, seja para uso na cidade, em trilhas ou até mesmo durante o dia, até que se passou a uma situação oposta: o problema da iluminação ciclística deixou de ser a escassez e a indisponibilidade, e passou em alguns casos a ser o excesso e o mau uso.

Com um ambiente propício para se iniciar no ciclismo, incluindo a preocupação quanto à segurança dos passeios, às vezes ciclistas com menos experiência acabam fazendo uso inadequado de material de iluminação, seja pela escolha de equipamento não indicado para sua modalidade, seja por ajustar esse equipamento de forma errada, causando problemas para si e para os outros usuários da estrada, incluindo seus próprios colegas, muitas vezes sem nem se dar conta disso.

Sendo assim, a Sociedade Audax de Ciclismo preparou este texto como forma de trazer o assunto para o debate. As opiniões expressas representam a opinião do autor, com base em leituras técnicas e científicas sobre o tema, e na experiência pessoal de mais de quinze anos com os modelos de farol (bons e ruins) que foram surgindo com o tempo. A intenção não é, e nem poderia ser, fornecer “receitas”, e muito menos recomendar o modelo X ou Y. A intenção é, sim, de que cada ciclista tenha condições de conhecer alguns princípios universais, podendo então avaliar se um modelo de farol é uma boa compra, ou se o farol que ele já tem está bem instalado, e principalmente quais são as características luminosas que se esperam de um equipamento adequado PARA AUDAX.

Nos eventos noturnos dos últimos anos, tanto de dentro do pelotão quanto dos carros de apoio, tem sido possível observar como é grande a evolução tecnológica dos equipamentos ao longo dos anos, havendo faróis, luzinhas e coletes com qualidade muito grande. Entretanto, também fica evidente a GRITANTE a diferença entre as pessoas que estão bem equipadas, e com os equipamentos bem instalados e regulados, e aquelas que estão com equipamentos inferiores, e/ou mal instalados, e/ou mal regulados.

Entre os problemas causados pela má iluminação, estão os seguintes:

  • O ciclista se torna menos visível aos outros ciclistas e aos motoristas, podendo inclusive ficar “de fora” da avaliação visual de um grupo, o que é particularmente grave em cruzamento de rodovias se esse ciclista for o primeiro ou o último do grupo;
  • Diminuição do conforto visual do ciclista, seja por iluminação insuficiente ou por iluminação excessiva (auto-ofuscamento);
  • Diminuição da segurança do ciclista, que pode não ver obstáculos, ou não ver esses obstáculos em tempo hábil, ou ser obrigado a limitar sua velocidade em descidas, aumentando o desgaste físico e psicológico, e em momentos extremos ele pode acabar “lançado no vazio”, quando o ciclista vem com velocidade, mas de uma hora para outra não há visibilidade para enxergar a pista.
  • Interferência na capacidade de andar ou não andar em grupo (pelotão). Por vezes, em trechos críticos da estrada, o ciclista pode acabar sendo obrigado a andar em um grupo mais lento ou mais rápido do que gostaria por estar precisando “parasitar” a luz de outros, ou pode sofrer pela alternância constante e imprevisível entre sua luz e a luz dos outros durante os revezamentos de posição e ultrapassagens.

O farol deve ser escolhido de acordo com o ambiente: cidade, trilha ou estrada.

Para pedalar num Audax, faz muita diferença ter um farol projetado para o ambiente em que os eventos se desenvolvem, ou seja:

  • Na estrada asfaltada e sinalizada (não em estrada de terra, não em trilha)
  • Sem iluminação pública (ou seja, em ambiente diferente da maioria dos grupos de pedal noturno);
  • Por muitas e muitas horas (ou seja, exigindo durabilidade adequada da bateria).

A maior diferença diz respeito ao padrão luminoso do farol, que pode ser verificado ao projetar sua luz contra uma parede branca:

Acima, farol adequado para off-road: luz simétrica em todas as direções, com bastante luz para cima, ajudando a visualizar galhos e a não perder a iluminação ao passar por lombadas ou baixadas ao longo do caminho. Esse tipo de luz NÃO É ADEQUADO PARA AUDAX (explicações no texto).
Acima, farol adequado para a estrada: “corte” preciso na parte superior, evitando ofuscar quem está à frente ou em sentido contrário, ponto de iluminação máxima logo abaixo do corte de luz e com formato “espalhado” na horizontal, e degradê uniforme de cima para baixo, proporcionando iluminação homogênea tanto para perto quanto para longe. Este farol não é adequado para off-road.

Características especiais da estrada asfaltada

O ser humano, em sua evolução biológica, não foi privilegiado pela natureza em termos de duas capacidades: se locomover em alta velocidade, e se locomover no escuro. Somos animais predominantemente terrestres (ex-arborícolas), diurnos, bípedes, e se para nós acabou se tornando natural viajar à noite a mais de 100 km/h isso se deve a duas invenções – rodas e faróis – complementadas por uma terceira – A ESTRADA.

A estrada é o principal componente do que se resolveu chamar “Ambiente Rodoviarizado”, um ambiente artificial, rigidamente planejado e regulamentado, de forma a garantir com segurança essas duas formas anti-naturais de locomoção: em alta velocidade, e à noite.


Para isso, o ambiente rodoviário – incluindo principalmente a estrada propriamente dita – tem as seguintes características:

  • É um ambiente padronizado, ou seja, existem convenções, “contratos”, que permitem agir baseado mais no que se sabe do que no que se vê. Por exemplo, espera-se que não haja uma curva fechada, ou um degrau, ou um muro, ou uma cerca de arame farpado, assim de repente, no meio da estrada, ou se houver, espera-se que haja uma sinalização apropriada, tanto em termos de tamanho e destaque, quanto em termos de antecipação ao obstáculo. Esse é o pressuposto para as altas velocidades de cruzeiro, mesmo à noite, sem que haja sobrecarga mental dos condutores;
  • É um ambiente distorcido em sua percepção de tempo e distância, apresentando uma perspectiva “achatada” em direção ao horizonte, que faz com que coisas muito distantes pareçam não tão distantes, que coisas velozes pareçam não tão velozes, e que coisas muito grandes pareçam não tão grandes, quanto mais longe se encontram ao longo da estrada, principalmente em retas longas. Isso se torna ainda mais crítico se considerarmos as grandes velocidades relativas com que os veículos se cruzam a todo momento, ou as baixas velocidades relativas entre grupos de veículos próximos se locomovendo no mesmo sentido em alta velocidade.
  • É um ambiente codificado, ou seja, algumas coisas – como o próprio chão! – não precisam ser vistas em sua totalidade, pois estão representadas por códigos. O melhor exemplo desses códigos são as linhas da estrada: linha contínua, linha branca, linha interrompida, os olhos de gato e suas cores, todos eles especificam a estrada de forma tão completa que é possível muitas vezes conduzir somente se baseando neles:
    somenteEstrada.jpg
    Na imagem acima, praticamente a única informação visual são as linhas que delimitam a estrada, e a codificação é tão eficaz que parece perfeitamente possível se manter sobre a estrada, mais especificamente na pista da direita como se pode perceber na imagem, mesmo em velocidades relativamente altas.
  • É um ambiente compartilhado, e mais especificamente, compartilhado entre veículos. As interações que ocorrem entre as pessoas ocorrem, na verdade, entre seus veículos. Não há tempo nem oportunidade para comunicação verbal, e na maioria dos casos nem para comunicação corporal. A linguagem da estrada é a linguagem telegráfica do sinal de luz, do pisca-pisca, do pisca-alerta, da luz de freio, da buzina. A padronização também da comunicação é um pressuposto da ordem e da viabilidade do transporte rodoviário, e seguir essas padronizações, assim como especialmente a expectativa que os outros usuários da estrada têm quanto a essas padronizações, é algo que os Randoneiros devem se preocupar em fazer em todos os aspectos, especialmente no que se refere à iluminação.

A função do farol dianteiro para Audax

O farol dianteiro para andar na estrada tem como missão criar uma iluminação razoavelmente homogênea do terreno à frente, incluindo principalmente quatro regiões do campo visual que têm diferentes funções:

  1. Zona de varredura: é a região do asfalto que vai passar sob a bicicleta entre dois a três segundos, aproximadamente. Quanto maior a velocidade da bicicleta, mais longe essa região fica. Essa região deve ser iluminada com intensidade e homogeneidade suficiente para percepção da textura e do relevo dos objetos, de forma que o ciclista possa planejar sua trajetória e reagir adequadamente aos obstáculos;
  2. Região próxima: é a região imediatamente à frente e ao lado da bicicleta, que na maior parte do tempo só é analisada inconscientemente, pela visão periférica. É responsável pelos estímulos visuais que avaliam a direção e a velocidade do deslocamento do ciclista. A periferia da retina é onde a imagem dos objetos se move com maior velocidade, e esse campo de velocidades é importante para que o cérebro construa um modelo consistente e confiável do ambiente, evitando o “efeito túnel” de faróis que só iluminam um foco na região da Zona de Varredura.
    Acima, farol que ilumina muito pouco (por ser muito fraco, e também por estar apontado para baixo). Isso faz com que o ciclista perca a noção tridimensional do ambiente.
  3. Região Distante: é a região onde a estrada já começa a ficar escura porque o farol parece não alcançar, e porque a luz chega quase paralela com o piso. É importante que haja alguma luz sendo enviada para essa região (mesmo que aparentemente seja uma luz “perdida”), pois permite visualizar objetos verticais como veículos parados, objetos caídos na estrada, placas, animais, pedras, árvores e pessoas.
  4. Região Superior: tudo que se encontra acima do horizonte. Devido ao ofuscamento dos veículos que se aproximam, é importante que os faróis para audax NÃO enviem muita luz para essa região. Além disso, visto que os objetos mais relevantes acima do horizonte são placas refletivas, apenas uma pequena quantidade de luz do farol é suficiente para a leitura, e enviar muita luz para essa região seria um desperdício de energia das pilhas.

Como posicionar as luzes

O posicionamento é importante para que as luzes tenham sua máxima eficiência e economia, sem incomodar outras pessoas.

O farol dianteiro deve ser regulado de forma que a parte superior do seu cone de luz fique praticamente horizontal. O ajuste definitivo deve ser feito durante o evento, se possível em um trecho de estrada plana, reta e escura, buscando a distribuição de luz mais uniforme possível, como no exemplo abaixo:

Uma luz dianteira apontando muito para baixo cria um “buraco negro” na estrada à frente, diminuindo a percepção do ambiente e fazendo com que o ciclista pedale em uma “bolha de luz” desconectada da “realidade externa” da estrada:

O farol acima está regulado muito baixo, e não é possível visualizar nada que esteja a mais de cinco metros de distância. Além disso, a região de luminosidade máxima, quando está muito próxima do ciclista, provoca contração da pupila e diminuição da sensibilidade da retina, reduzindo ainda mais a capacidade de enxergar o restante da estrada.

Uma luz traseira apontando para baixo se torna menos visível para os veículos que vêm por trás, perdendo a “razão de ser”:

Uma luz traseira apontando para cima é uma sabotagem não apenas com o ciclista que está atrás, mas consigo mesmo, pois fica bem menos visível pelos veículos que vêm atrás, já que a maior parte da luz vai ser lançada para cima:

 

Qual farol eu devo comprar? 

Não temos o direito de induzir ninguém a comprar a marca ou o modelo X ou Y, mas temos até o dever de indicar alguns tipos de farol que são mais adequados, assim como outros que são inadequados. Aqui seguem as orientações que julgamos mais convenientes, considerando em especial os eventos NOTURNOS (a partir de 300km):
  • Seu farol deve durar uma noite inteira (12 horas, incluindo substituição das pilhas). A partir do evento de 300km, todos os eventos transcorrem ao longo de uma noite praticamente inteira, e o farol deve funcionar com plena potência entre o pôr do sol e a manhã seguinte.
  • A luz de um bom farol deve ser visível contra a parede durante o dia, e deve doer no olho (crianças, não façam isso em casa). Qualquer farol que não seja assim não serve para audax, independente do formato do facho luminoso, por ser fraco demais. Por outro lado, de nada adianta o farol “brilhar como se fosse dia”, caso ele não tenha um padrão luminoso compatível com uso na estrada. Nesse caso, “potência (luminosa) não é nada sem controle (foco adequado)”.
  • Altas quilometragens em bicicleta criam um ambiente hostil para o equipamento: sol, chuva, trepidação, solavancos, esbarrões… Um bom farol de audax deve ser capaz de aguentar esse tipo de coisa por muitos e muitos eventos. O suporte, os encaixes e as fixações devem ser compatíveis com esse tipo de situação. Evite faróis que pareçam delicados ou sensíveis, se possível.
  • LANTERNA NÃO É FAROL!! Ultimamente tem havido uma proliferação de lanternas sendo usadas como farol. Embora isso seja adequado para audax diurnos (200km), e em passeios noturnos (para sinalização), essas lanternas não são adequadas para estradas sem iluminação pública, pois ofuscam as outras pessoas e até mesmo ao próprio ciclista, criando uma região próxima muito iluminada e uma região distante pouco iluminada, além de terem consumo de energia elevado, raramente durante uma noite inteira. Caso venha a usar uma lanterna desse tipo, evite o modo de luminosidade máxima quando o modo intermediário for suficiente para visibilidade.
  • NÃO SE USA FAROL PISCANDO À NOITE!! A visão humana só consegue funcionar com baixa luminosidade após um período de adaptação da retina, que leva alguns minutos, além da dilatação da pupila que permite maior entrada de luz. Qualquer luz dianteira piscante à noite interfere diretamente com as adaptações da visão noturna, e portanto não deve ser usada desse modo. O critério é o seguinte: se você perceber que a paisagem está piscando, use a luz em modo contínuo. Durante o dia, quando não é possível ver a luz do farol, pode ser feito o uso piscando, como forma de se destacar e identificar como uma bicicleta.
  • Faróis recarregáveis devem ser acompanhados de carregador ou bateria reserva durante o evento. Quanto mais potente o carregador, melhor (pois menos tempo parado será necessário para recarregar o farol em alguma tomada).

Esperamos ter contribuído para um melhor entendimento das questões envolvidas na iluminação noturna para audax. Se tiver alguma dúvida ou sugestão, deixe um comentário!

10 ideias sobre “Iluminação para Audax: como escolher, instalar e usar faróis e luzinhas

  1. Geleovir Freitas

    Olá!
    Este é meu primeiro Audax. Estou inscrito no BRK 200.
    Entendi que o meu modelo não serve para uma modalidade noturna, não sei qual é o meu exatamente, mas acho que é do tipo "frog" como foi mencionado em outra matéria.
    Não tenho certeza se entendi corretamente, eu preciso de um farol adequado para a noite, mesmo estando inscrito em uma modalidade diurna?
    Geleovir Freitas.

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  2. Glaucy Mara Euzebia Rocha

    Por favor, me auxilie com o nome de uma lanterna para usar no Audax 300 como foi citado acima, tenho pesquisado para isso, mas a dúvida supera… Usei com o MEQIX (sally-Led-eW) e levei uma bateria reserva, mas perdi ele em um pedal noturno na descida em estrada, agora tenho que adquirir outro… Por ler a matéria, peço uma indicação de marca… Desde já agradeço… maraglaucy@hotmail.com

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  3. Adivar José de Oliveira Neto

    Muito Bom o artigo, mas vocês poderiam nos informar os 5 ou 10 melhores modelos que vocês conhecem, visto a experiência que tem.
    Se não puderem colocar aqui, agradeceria se me enviasse por email.
    Sds

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  4. Markus Brandl

    Excelente artigo.
    Para pedaladas noturnas eu uso um par de faróis da Busch&Müller do modelo Ixon IQ Premium. São alimentados por 4 pilhas recarregáveis de 2500 mAh (tipo AA), cada um.
    Essas pilhas me dão autonomia de pouco mais de 5 horas em intensidade máxima (80 lux) e 20 horas na mínima (40 lux).
    Para uma estrada escura, esse par funcionando a 40 lux, pra mim, são mais que suficientes.
    Aqui vai um link de um vídeo do YT falando a respeito do modelo (começa a falar dele a partir de 02:55):
    https://www.youtube.com/watch?v=WwM7vDvvGhU

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